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quinta-feira, fevereiro 27, 2014

Ser mãe e sair sozinha com os filhos

Passeio de fim de tarde ao laguinho do condomínio onde morávamos. Foto tirada com tripé
Esse post começou a nascer como um comparativo entre a divisão das tarefas domésticas daqui de cansa antes e depois que eu deixei de trabalhar fora. Mas quando eu cheguei na parte das compras do mês, meu cérebro viajou num assunto meio complexo, que me deixa perplexa e que me dá muita vontade de abordar. É o fato de que, em algum momento da história, colocaram na cabeça das mulheres que elas "NÃO CONSEGUEM" e isso nunca mais saiu.

Deixa eu explicar como cheguei lá. Antigamente, eu e Gustavo trabalhávamos fora, então compras do mês só podiam ser feitas em horários alternativos. E como não temos (na verdade não tínhamos) com quem deixar as crianças, elas iam com a gente. Não vou dizer que era a alternativa mais bacana, mas também não era nenhum bicho de sete cabeças. E muitas vezes o Gustavo não podia ir, então eu fazia as compras sozinha com as crianças.

Um passeio no Hot Park. Adoro esses fotógrafos que ficam dentro da água!
Nesse ponto do raciocínio eu me lembrei de várias pessoas que têm dois ou mais filhos e não conseguem sair sozinha com eles. Algumas dessas pessoas eu conheço pessoalmente, muitas eu só conheço virtualmente ou ouvi falar. Mas fico abismada com isso, como assim não consegue sair sozinha com os filhos??? Não estou falando de viajar sozinha com eles (de carro então nem pensar), mas de ir na esquina, na padaria, no shopping, no parquinho. E não preciso ir muito longe não. Basta dizer que meu queixo caiu quando minha própria mãe me disse que não saia sozinha comigo e com a minha irmã.

O que leva uma mulher que trabalha fora, encara as tarefas domésticas e enfrenta mil coisas diferentes a não conseguir sair com seus próprios filhos? O medo, a trava que colocaram em suas cabeças dizendo que elas não são capazes. E o medo de dar o primeiro passo, de fracassar, de não dar certo, de não dar conta. As vezes até pessoas próximas que dizem que é melhor não, que não vai dar certo, que isso é loucura. E quem ganha com isso? Ninguém!

Toda vez que comento que viajo muito de carro sozinha com meus filhos tem alguém que vira pra mim e me diz que sou muito "corajosa", meio que querendo dizer que sou louca. Mas acontece que não comecei viajando 1000 km com eles. Comecei indo pro outro lado da cidade ( o que leva uma hora ou mais, é uma viagem), depois indo até Santos, depois até o Rio ou Juiz de Fora e por aí vai. Na primeira vez eles devem ter me dado trabalho (não me lembro mais). Na segunda, terceira, quarta, eles já estavam entrando no ritmo. Lembro de uma ou duas vezes em que tive que parar o carro e dar uma bronca daquelas e depois continuar a viagem. Mas foi só isso, em dezenas de viagens que já fizemos juntos.

Na última viagem que fizemos sozinhos aderimos às "selfies" :)
Assim foi para sair com os dois. Começamos pelo condomínio onde morávamos, passamos a ir até a padaria e por aí vai. Se a gente não tem coragem de dar o primeiro passo, não vamos chegar a lugar nenhum. O primeiro passo não pode ser maior do que a perna, assim como não podemos deixar que o medo nos paralise e nos impeça de andar. Se você está em um impasse como esse, não deixe que sua vida fique paralisada, não fique infeliz. Lembre-se de que o controle da sua vida é seu e não depende de ninguém para mudar isso. Respire fundo e tome coragem para dar o primeiro passo. E não desista!

segunda-feira, maio 14, 2012

Um jovem (e quase anônimo) herói

Tem uma história que eu admiro bastante e sempre quis contar aqui no blog. É algo bem conhecido pelos escoteiros, mas nem tanto assim por quem não é, apesar do nome do protagonista ter sido dado a vários monumentos e ruas pelo Brasil, até mesmo a um estádio de futebol. É a história de Caio Viana Martins, que tinha apenas 15 anos, mas deu ao mundo um exemplo ímpar de dedicação, amor ao próximo e serviço.

Aliás, o grande feito de Caio teria passado desapercebido, se não fosse o testemunho de dois influentes políticos mineiros Alcides Lins e Octacilio Negrão de Lima, que impressionados com a ação dos escoteiros no socorro aos feridos e com o gesto de desprendimento de Caio Martins, levaram aos jornais o que tinham assistido.

Gosto de me lembrar dessa história sempre que algumas pessoas usam a pouca idade como desculpa para a inconsequência, falta de respeito e imaturidade de alguns jovens...

Caio tinha 15 anos e, desde os 8 fazia parte do Grupo Escoteiro Afonso Arinos (atualmente inexistente), de Belo Horizonte. Em dezembro de 1938 ele embarcou no trem noturno com destino a Volta Redonda (RJ), junto com outros 24 membros de seu grupo, para participar de uma excursão técnica/cultural em São Paulo. Esse tipo de excursão é muito comum no Movimento Escoteiro. Eu mesma, com a idade dele, fiz uma também para São Paulo. Não havia porque pensar que algo poderia dar errado.

Acontece que, às 2h05 da madrugada, ao descer a Serra da Mantiqueira, o trem noturno chocou-se com outro, um cargueiro que, por algum erro, subia pela mesma linha. Com o choque muitos carros descarrilaram, outros engavetaram e alguns se desmontaram. O vagão da frente ao ocupado pelos escoteiros saltou dos trilhos, atravessando para a direita, engavetando-se, partindo-se e tombando sobre o barranco, comprimido para a frente pela pressão dos vagões restaurante e leito.

Imagem do acidente divulgada nos jornais da época
Na noite escura os escoteiros foram reunidos pelos chefes em um ponto da estrada. Percebeu-se a ausência de um escoteiro e um lobinho, que posteriormente foram encontrados mortos. Acontece que, com o desastre (o trem estava cheio), estabeleceu-se o pânico entre os sobreviventes. Liderados por seus chefes - Clairmont Orlando Gomes e Rubens Amador, os escoteiros passaram a socorrer os feridos, confeccionando macas com lençóis e paus, e providenciando uma fogueira com tábuas retiradas dos vagões, facilitando o trabalho de resgate e socorro.

Esse trabalho dos escoteiros mineiros foi essencial, pois a ajuda externa só chegou às 7 da manhã. Ou seja, aproximadamente 5 horas depois do acidente.  Os passageiros feridos (inclusive alguns escoteiros), foram transportados para Barbacena. No desastre morreram 40 pessoas, inclusive um escoteiro e um lobinho.

Caio Viana, que na época era monitor de sua patrulha, foi retirado do vagão por seus companheiros durante a madrugada e recolhido ao vagão leito, que permaneceu intacto e serviu de pronto socorro. Mas deu sinais de melhora e passou a ajudar no resgate, estancando sangue de feridos, e até ajudou na remoção de cinco feridos para o vagão leito.  Acontece que ele havia recebido uma forte pancada na região lombar, e sem saber tinha sofrido esmagamento das víceras e hemorragia interna. Mesmo assim, quase não comentava a dor intensa que sentia.

Quando notou um enfermeiro se aproximando dele com a maca, olhou ao redor e viu que havia outros feridos mais necessitados. Encarando o enfermeiro disse: "Não. Há muitos feridos aí. Deixe-me que irei só. Um Escoteiro caminha com as próprias pernas". E, acompanhado dos amigos, seguiu andando, para a cidade. 

Porém, o esforço que fez foi muito grande. Ao chegar ao hotel em Barbacena deu algumas golfadas de sangue (em conseqüência da hemorragia interna que sofreu) e foi levado para a Santa Casa, vindo a falecer no dia seguinte, na presença de seus pais. Foi sepultado no cemitério de Bom Fim, zona norte de Belo Horizonte, junto do escoteiro Gerson e do lobinho Hélio Marcos,que também morreram no acidente. 

Foto tirada durante o Multirão Pioneiro Nacional de 2009
 Atualmente, Caio Viana Martins é o escoteiro símbolo do Brasil. Em 1941, em Niterói, o Governo do Estado do Rio de Janeiro inaugurou uma grande praça de esportes, denominando-a "Estádio Caio Martins", em homenagem ao jovem que, por seu gesto, tornou-se modelo para os escoteiros de todo o Brasil. Além disso, em Juiz de Fora/MG, foi-lhe erguido um monumento no parque central da cidade (Parque Halfeld). A estátua foi doada pelo Grupo Escoteiro Caiuás com o apoio do Instituto Granbery.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Coragem? Não, sobrevivência

(Antes de começar, um parenteses. Hoje seria dia de post da dieta coletiva. Acontece que com esse furacão que está a minha vida, continua tudo na mesma: estou mantendo a alimentação light, mas não consigo fazer os exercícios. E meu peso continua exatamente o mesmo, depois que perdi aqueles 2,5 kg, não emagreci mais, nem engordei também. Então não vou entediar vocês com a falta de novidades)

Pra ilustrar o post vamos de Coragem, o cão covarde. É a minha dicotomia!
Na nossa família temos uma pessoa que trabalha conosco há muitos anos. A Rosa foi babá da minha irmã, depois passou a ser diarista 3 vezes por semana, depois só uma. Quando saí de casa ela foi trabalhar na minha também, quando meus pais se separaram ela acrescentou mais uma casa à sua lista semanal, hoje ela faz faxina na casa de todos nós, menos na minha que é muito longe pra ela, mas vem em ocasiões especiais.

Semana passada foi uma dessas ocasiões, ela veio passar roupa pra mim, que estava sem faxineira (porque a minha resolveu desaparecer. De novo). E num certo momento, a Rosa virou pra mim e falou: "Tati, você é muito corajosa de se mudar pra São Paulo. Eu não teria essa coragem". Eu pensei por uns segundos e respondi: "Não, Rosa. Não é questão de ter ou não coragem. É questão de sobrevivência".

E essa é a mais pura verdade. Ou nos mudávamos para São Paulo ou continuaríamos afundando nessa lama que se tornou nossa vida aqui. Não é preciso coragem pra fazer uma mudança como essa: é preciso fechar os olhos e meter a cara. Não estou dizendo que tem que fazer as coisas sem pensar, não é isso. Estamos com tudo bem planejado. Mas se ficar pensando demais, não faz.

Se eu estou com medo? Claro que estou com medo. Só que se eu parar pra pensar nisso, vou ficar apavorada! Então eu não me dou tempo de parar pra pensar, só planejo e faço. Ainda assim, fico me sentindo mal com algumas coisas, culpadas com outras.

Como com o Vítor, por exemplo. No começo ele não queria ir. Vai ficar longe da avó, da dinda, do avô. Reclamou que ia ficar sem os amigos (e eu: "Que amigos? Você nem tem amigos!" Ao que ele respondeu: "Os da colônia de férias" kkkkkk). Mas falei pra ele dos passeios muito legais que a gente vai poder fazer lá, falei que é pertinho da praia, muito mais perto de Juiz de Fora (casa da minha avó) e ele já está todo animado.

Mas o problema não é esse. O problema é que as coisas aconteceram todas de uma vez e fora do nosso controle. Num mundo perfeito e ideal, teríamos nos mudado em janeiro e ele já começaria o ano na nova escola. Acontece que meu mundo pode ser tudo, menos perfeito e ideal, então ele vai estudar um mês aqui e começar na nova escola. Só que temos mais um detalhe: como a escola do ano passado não tem segundo ano, ele JÁ ESTÁ começando numa nova escola. Ou seja: vai ter que se adaptar à uma nova escola duas vezes. Eu sei que ele é bem esperto e vai passar por isso numa boa. Mas e eu? E minha culpa?? rs

Isso não quer dizer que eu também não esteja animada e feliz. São coisas completamente diferentes. Meu novo trabalho é maravilhoso e instigante, o Gustavo também está animado com as possibilidades, estou recebendo MUITO apoio das amigas lá de Sampa, isso é MUITO legal.

Enfim, estou tendo que trabalhar, mais do que nunca, as minhas facetas de Onça e Gata, como falei nesse post aqui na Rede Mulher & Mãe. Batalho um bocadinho aqui, me aconchego um bocadinho ali. E assim as coisas vão acontecendo.